Amigo de fé - release

Por HUGO SUKMAN

 

É o afeto que guia Cláudio Jorge pelos caminhos da música e da vida. Quem tem a honra e o prazer de conhecer esse músico (palavra que talvez faça jus a um violonista, guitarrista, compositor, letrista, cantor, produtor, agitador, pensador, escritor, crítico, boêmio, empresário...), carioca e botafoguense do Cachambi hoje docemente exilado numa ladeira de Laranjeiras e freqüentador obsessivo das vielas de Lisboa, saberá logo que não há pessoa melhor. Amigo de fé (Carioca Discos), seu terceiro disco autoral, é cristalino reflexo disso: a transformação dessas duas palavras, “amigo” e “fé”, em sambas e canções, tudo guiado com muito talento e sinceridade pelos caminhos do afeto.

    Se no CD anterior, a obra-prima “Coisa de chefe” (Carioca Discos, 2001), o tema e o motivo eram o samba, ou o como fazer um samba ao mesmo tempo moderno e eterno no século XXI, neste Amigo de fé, tema e motivo são as relações que dão sentido à vida. Cada letra, cada música fala disso, cada músico (os melhores do Brasil na atualidade), parceiro ou artista participante chegou aqui pelos caminhos da amizade e do trabalho diários. Tudo, de cada canção à forma de produção independente, é resultado, de fato, da vida. Daí a sinceridade que salta aos ouvidos de uma música feita com calma, no decorrer do tempo, sem a pressa do profissionalismo, mas com o alto nível de exigência deste.   

Mas mesmo a mixagem – algo normalmente tratado de forma fria, técnica – aqui ganha ares de encontro. Há primeiro um encontro real, com o velho amigo e parceiro Guilherme Reis, sócio de Cláudio Jorge na gravadora Carioca Discos, um dos maiores engenheiros de som e mixagem da música brasileira. E há, na mixagem, um encontro do violão e das harmonias de Cláudio Jorge com as vozes e a percussão. Ouçam Estrelinha e Conchinha, ou qualquer faixa de Amigo de fé, e tentem lembrar de uma mixagem mais generosa para o instrumento do compositor e sua canção (Afinal, o que se esperava de um disco do maior violonista de samba? Não seria o seu violão?).

    Assim como a mixagem, a capa fotografada por Bruno Veiga é também resultado de afeto, de uma longa parceria entre o compositor e o fotógrafo, autor de todas as capas da Carioca Discos e hoje seguramente o fotógrafo mais dedicado ao samba no Rio de Janeiro.

Estrelinha e Conchinha

O hipnótico ijexá que abre o CD, bem poderia resumir suas intenções: um disco sobre afeto e amizade. Cláudio Jorge o inicia tratando da relação do homem com a eternidade, na sua visão de alguém profundamente religioso. Estrelinha e Conchinha é uma celebração do encontro (ou seja, da amizade): do homem com a eternidade, de Oxum com Iemanjá, das águas do rio com as águas do mar. A música foi “encomendada” pelas próprias Estrelinha e Conchinha, dois Erês a quem o compositor encontrou certa vez num ritual de candomblé, sua religião. O coro infantil Toca o Bonde – Usina de Gente, regido por Silvia Passaroto, e a percussão afro-brasileira de Zero, reforçam a atmosfera de encontro.

ESTRELINHA E CONCHINHA

(Cláudio Jorge)

Ora yê yê  ò Oxum

Iemanjá odoyá

Vamos rezar pra Olurum.

 

Estrelinha na areia

E Conchinha no mar

No encontro das águas

De Oxum com Iemanjá

Assim sempre foi

E assim sempre será

Elas chegam juntas

Quando a gente vem rezar

 

Elas chegam juntas

Pra gente rezar

Assim sempre foi

E assim sempre será

No encontro das águas

De Oxum com Iemanjá

Estrelinha na areia

E Conchinha no mar

 

Arranjo e violão - Cláudio Jorge

Baixo elétrico - Bororó      

Bateria - Camilo Mariano 

Batá itotelé / Batá okonkolo / Batá iyá

Djembe/Crotalis/ Efeitos de água/Ganzá - Zero 

Participação eepeciais - Coral TGBU 

Regente do coral  infantil - Silvia Passaroto Braga

Amigo de fé

Samba de formato clássico, elegante como todos os seus sambas, Amigo de fé fala por si em relação ao espírito do disco: “O amor é difícil quebrar/Amigo de fé nada pode separar”, diz a letra de Ivan Wrigg, primeiro parceiro de Cláudio Jorge. A amizade como panacéia para todos os males do mundo (“E o balão vai queimando/E o time perdendo no futebol/Só falta o sol dar um curto/E o céu apagar”) reflete-se novamente na produção da faixa, no arrasador arranjo de metais de Humberto Araújo (também nos saxofones), com quem Cláudio Jorge já fez tantos trabalhos (como produção e arranjos do disco Sincopando o breque, de Nei Lopes) e a quem admira tanto como amigo e arranjador.

AMIGO DE FÉ

(Cláudio Jorge e Ivan Wrigg)

É meu amigo

Custou mas tinha que pintar

Hoje eu corri pro papel e a coisa veio

Mando essa carta-canção

Que já tava atrasada nem vou comentar

Você sabe que a bruxa

Anda solta roncando no ar

É... Não dá mais pra dormir

A vida tá aí

Se a gente parar pra pensar

Quem é que vai agir

Pois é demorou mas cheguei

O amor é difícil quebrar

Amigo de fé nada pode separar

 

Abro o jornal pra saber

Pra rever como a coisa está

Tá cada um se virando pra sobreviver, é...

E o balão vai queimando

E o time perdendo no futebol

Só falta o sol dar um curto

E o céu apagar

Mas felizmente ainda posso escrever

Pra te por a par

Que esse meu coração não parou de sambar

E enquanto o peito bater

E um amigo escutar

Eu dato e assino

Que a coisa vai mudar

 

Arranjo de base e violão - Cláudio Jorge

Arranjo de metais - Humberto Araújo  

Baixo elétrico -  Ivan Machado  

Bateria - Camilo Mariano  

Pandeiro/Tan-tan - Marcelinho Moreira  

Sax Tenor/Sax soprano -  Humberto Araújo  

Trompete/Fluguel - Altair  Martins

Clarone/Clarinete  - Levi Chaves  

Devagar com o andor

O partido alto celebra um amigo tão importante que Cláudio Jorge o traz constantemente abraçado ao peito: o violão. E de quebra, a letra traz uma espécie de manifesto humanista do autor, traz toda a sua visão de mundo, presente também no bom gosto, na sofisticação harmônica que ele põe sobre este gênero primordial de samba.

Devagar com o andor

(Cláudio Jorge)                         

 

Devagar com o andor

Que o Cláudio Jorge é de Barros.

Tem coisas que podem me incomodar

Mas quando fico chateado

Tenho o violão do lado

Para me consolar.

 

 

Me incomodo quando vejo injustiça,

Preconceito e má vontade

Em quem pode resolver a situação.

Os poucos que têm muito nada fazem

Devem ter pedra de gelo no lugar do coração.

Meu violão chora por matas brasileiras

Cada vez mais estrangeiras

E com tantos precisando de uma terra.

Não gosta de quem prende e tortura

Nem de quem se enriquece faturando com a guerra.

 

Eu raramente me aborreço com a vida

Vivo ela bem vivida

Mas tem horas que eu não seguro não.

É quando me proíbem o direito

De tocar meu Samba novo sem jabá lá estação.

Meu violão já está comigo há muito tempo.

Sou parceiro nos momentos

De alegria e de tristeza que revela.

Mas numa ele quase se calou

Vendo o drama lá de perto de quem vive favela.

 

A paciência foi um dom que Deus me deu

E com ela a consciência que sem fé

Não é possível se viver.

Confesso que me deixa irritado

Quando igrejas e mercado se aliam pro poder.

Meu violão não quer mentira, desafeto...

Cena de um jornal diário

Que só faz envenenar a poesia

Por isso ele está sempre ao meu lado

Quando fico chateado me consola noite e dia.

Arranjo e violão -  Cláudio Jorge 

Baixo elétrico - Ivan Machado

Bateria - Camilo Mariano

Pandeiro - Ovídio Brito

Tan-tan/Caixa - Marcelinho Moreira     

Caixa - Paulinho  e Da Aba

Tamborim/Clave/Block/Caixa - Marçal                                            

Coro -  Analimar Ventapani, Claudia Telles e Jurema de Cândia

Laços no tempo

A bossa nova feita por Cláudio Jorge para sua mulher Renata, prossegue no caminho do afeto celebrando o amor. Mostra um Cláudio Jorge inspiradíssimo como letrista (“Você é zen e faz tai chi chuan/E eu, meu bem, projeto de Ogã/Nas diferenças somos iguais/Buscando a paz no amor”), cantando o fino e contando com o arranjo de cordas de outro velho parceiro, outro velho amigo, o maestro carioca Gilson Peranzzetta.

LAÇOS NO TEMPO

(Cláudio Jorge)

 

Você surgiu tão de repente

Tal qual estrela cadente

Luz pro meu pedido de ser feliz

Logo eu te quis.

Você me olhou

E então sorriu pra mim

Tocando a minha alma assim

E as nossas mãos

Logo se encontraram

Parando o mundo em nós.

 

O primeiro beijo

Reatou os laços no tempo

Vem de longe eu dizer te amo tanto.

Você é zen e faz Tai chi chuan

E eu, meu bem, projeto de Ogã.

Nas diferenças somos iguais

Buscando a paz no amor.

Arranjo de base e violões - Cláudio Jorge

Arranjo de cellos -  Gilson Peranzzetta

Baixo acústico - Bororó                                   

Bateria -  Camilo Mariano                               

Cellos - Iura Ranevsky e Marcio Malard

Block - Armando Marçal                              

Participação especial - Iura Ranevsky (Solo de Cello)

Coisas simples

Eis uma parceria com um Elton Medeiros em grande forma, numa daquelas melodias que poderia receber letra de Paulinho da Viola, de Hermínio Bello de Carvalho, de Cartola. E que recebe, de Cláudio Jorge, uma outra ode ao afeto: “Um beijo, um abraço, um olhar/ Um chope, um bom papo e o luar/ São coisas simples que a paixão/ Vem pra valorizar”. Terceiro amigo/arranjador a entrar em campo, Leandro Braga injeta sopros suingadíssimos ao samba. O suíngue é reforçado pela participação especial de Mauro Diniz no cavaquinho, com a elegância compatível para um filho de Monarco num samba de Elton Medeiros e Cláudio Jorge. Se isso não é um clássico, o que mais seria?

COISAS SIMPLES

(Elton Medeiros e Cláudio Jorge)

Eis que mais uma vez o amor

Mexe com o meu coração

Onde ainda está guardada a dor

Da última desilusão

É talvez absolvição

Que nem indulto de um rei

Que me liberta na canção

As rimas de amor e flor que eu sei

Como é bom viver este momento

Onde tudo é motivo pra sonhar.

Um beijo, um abraço, um olhar,

Um chope, um bom papo e o luar.

São coisas simples que a paixão

Vem pra valorizar

Arranjo de base e violão - Cláudio Jorge

Arranjo de sopros  - Leandro Braga       

Baixo  elétrico -  Ivan Machado

Mauro Diniz - Cavaquinho                                    

Bateria -  Camilo Mariano                   

Pandeiro - Ovídio Brito                                                  

Repique/Tamborim - Marcelinho Moreira             

Tamborim -  Armando Marçal                  

Coro - Analimar Ventapani, Claudia Telles e Jurema de Cândia

Sax alto - Ricardo Pontes                                            

Sax tenor - Humberto Araújo                            

Fluguel - Nelson Oliveira                    

Trombone - Sérgio de Jesus                                               

Recado pro Elton Medeiros

Decano dos grandes melodistas do samba, o parceiro volta como homenageado em Recado pro Elton Medeiros, talvez o primeiro samba inspirado num recado de secretária eletrônica, cujo resultado em letra e música de Cláudio Jorge não deixa a menor dúvida sobre a relação entre o afeto e a composição: “Meu irmão, mas que prazer/ Teu recado eu encontrei/ Me bateu uma saudade/ De bons momentos lembrei/ O efeito de tanta emoção/ Pro papel já repassei/ Deixo em formato de samba/ O tanto que me emocionei”. Silvério Pontes no trompete e Zé da Velha no trombone (aliás, instrumento original de Elton) dão o toque de samba de gafieira à faixa.

RECADO PRO ELTON MEDEIROS

(Cláudio Jorge)

 

Meu irmão, mas que prazer

Teu recado eu encontrei.

Me bateu uma saudade,

De bons momentos lembrei.

O efeito de tanta emoção

Pro papel já repassei.

Deixo em formato de Samba

O tanto que me emocionei

 

Um convite pra uma parceria

Revela que a gente é uma grande amizade

E ainda vindo de um bamba

Pra mim é motivo de felicidade.

Assim que tiver um tempinho

Coloco uma letra na tua canção

Mas enquanto ela não chega

Recebe essa prova de admiração

 

O que eu sei todo mundo já sabe

De toda cidade é motivo de orgulho.

Lá no centro, Leblon,

Lá no bairro de Lucas

Ou no Pedregulho.

Um sambista com tantas conquistas

É sempre uma fonte de inspiração

Pra todo e qualquer brasileiro

Que sonhe bons tempos pra nossa nação.


                                                         

Arranjo e violão - Cláudio Jorge

Ivan Machado  - Baixo  elétrico -                                     Camilo Mariano  - bateria                                                   Pandeiro -  Ovídio Brito                                                  

Participações especiais: Zé da Velha (Trombone) e Silvério Pontes (Trompete)                     

Melhor assim

Lundu de cantigas vagas

Traz um presente pra mim?

O afeto arrebatador e agitado da paixão é representado por um outro grande samba, Melhor assim, com Nei Lopes. Já o prazer do dia-a-dia do amor tranqüilo e profundo é celebrado em claves diferentes por Lundu de cantigas vagas e Traz um presente pra mim?. O lundu é outra parceria com o velho amigo Nei Lopes. Trata-se de uma obra-prima e uma conspiração de afetos: embalado pela viola caipira erudita de Marco Pereira, Cláudio Jorge atualiza o velho e plangente lundu, uma das matrizes da moderna música brasileira, com direito a letra caudalosa e sofisticada de Nei (“Bem por trás daquela serra/ Naqueles longes confins/ Mora a flor mais olorosa/ No mais belo dos jardins”). Já Traz um presente pra mim?, um samba sincopado de malandro com a marca do parceiro Wilson das Neves, traduz como é gostoso voltar para casa depois das viagens de trabalho e reencontrar a mulher amada, numa outra aula de letra de Cláudio Jorge (notem que, aliás, como ele vem se tornando tão bom em letra quanto já era em música...). Os sopros calorosos vêm de outro arranjador craque e parceiro, Itamar Assiére.

Produzido por Paulinho Albuquerque e Cláudio Jorge para a Carioca Discos.

Gravado no Estúdio Discover

Técnicos de gravação: Rodrigo Lopes, Guilherme Reis, Rodrigo Duarte e Wanderley Loureiro.

Auxiliares: Pedro Quintaes       

Gravação de voz: Studio Araras -Técnico: Sérgio Lima Neto             

Técnico de mixagem: Guilherme Reis                            

Masterização: Batmasterson.- Técnico Amaury Machado

Fotos: Bruno Veiga

Direção de arte e design: Ernani Cal

Primeiro distribuidor: Zambo Discos

Atual distribuidor: Biscoito Fino

Esboço

Se a parceria com Wilson das Neves celebra a volta de viagem, a singela canção Esboço é a própria viagem, é o encontro de Cláudio Jorge com o parceiro d’além mar, o poeta angolano Manuel Rui (que participa da gravação declamando seus versos). Essa relação com Europa e África lusófona é resultado do trabalho de músico de Cláudio Jorge, das suas várias viagens anuais como violonista do conjunto de Martinho da Vila. Notem que, na ficha técnica de todas as faixas, como Cláudio Jorge viaja pelas canções com os mesmos parceiros que viajam com ele pelo mundo ao lado de Martinho: gente como o baixista Ivan Machado, o baterista Camilo Mariano, os percussionistas Marcelinho Moreira, Ovídio Brito, Paulinho da Aba e o flautista Victor Neto.

 

 

ESBOÇO

(Cláudio Jorge e Manuel Rui)

 

Há quanto tempo o vento finge seus lamentos

Dos afetos mais discretos

Da lua com o luar

E os teus afetos

Também discretos

Sombra de estrela com vergonha de brilhar

 

Não falem nada dos segredos e dos medos

Nem dos rumos mais incertos

Com miragem de gritar

São mil projetos

Dos mais concretos

Na intenção de sempre começar

 

É gota deste traço

Esboço de um abraço

No eco de um deserto perto

Unidos numa voz

Esboço de cantiga

Pra não ficarmos sós no som da vida

 

Há tanta coisa entre a pauta dos meus dedos

Neste esboço de cantiga

Só tem gente, gente amiga.

Com os segredos

De mil degredos

É muita gente para eu cantar

Arranjo de base e violão - Cláudio Jorge

Arranjo de metais -  Leandro Braga                                

Baixo acústico - Bororó                                               

Pratos -  Camilo Mariano

Flauta/Sax alto -  Ricardo Pontes                                         

Sax Tenor -Humberto Araujo                                                     

Participações especiais - Victor Neto (Solo de flauta) Manuel Rui (poeta angolano)                    

Músico profissional

Os colegas e a profissão são celebrados nesta outra parceria com Wilson das Neves. Outra melodia incrível e letra idem, vejam essa, afetuosa e cáustica: “É a isso que eu me dediquei/ E com muitos amigos toquei/ Batera, baixo e piston/ Vocal, pandeiro e acordeom/ É uma família feliz/ Embora viva por um triz/ Pois não são toadas as contas/ Que dão para pagar”.

MÚSICO PROFISSIONAL

(Wilson das Neves e Cláudio Jorge)

É hoje que eu vou lhes contar

Um prazer desse jeito não há.

Vivido por quem sempre está

Com as notas onde quer que vá.

Seja na grande orquestra, quarteto,

No palácio, palanque ou coreto.

No estúdio, em casa ou no bar,

Viajando por todo o lugar.

 

É gente que não cabe em si

Quando junta fá, sol, dó, ré, mi.

Seu tempo é o compasso e a canção

Na levada lá do coração

Que nasceu para sobreviver

De tocar um instrumento pra quem quer ouvir

 

É a isso que eu me dediquei

E com muitos amigos toquei.

Batera, baixo e piston.

Vocal, pandeiro e acordeom.

É uma família feliz,

Embora viva por um triz,

Pois não são todas as contas

Que dão pra pagar.

 

Mas se eu puder escolher,

Se acaso no mundo eu voltar,

O que gostarei de fazer

Pra de novo a vida levar,

Eu diria: só quero tocar um instrumento

E tentar o meu povo alegrar.

Arranjo de base, violões e solo de violão Cláudio Jorge

Arranjo de metais - Gilson Peranzzetta

Baixo acústico - Bororó

Bateria - Camilo Mariano

Pandeiro/Tamborim - Ovídio Brito

Tantan/Repique - Marcelinho Moreira

Fluguel -  Altair Martins

Sax alto/Flautas  - Ricardo Pontes

Sax tenor -  José Carlos Bigorna

Trombone -  Johnson Barbosa

Alô Noel

Sou da Vila, não tem jeito

Martinho da Vila, “patrão” mas antes de tudo parceiro em tantas canções, é o co-autor de Alô Noel, samba que traz ao painel de afetos do disco dois dos afetos mais queridos de Cláudio Jorge: o bairro de Vila Isabel, onde os músicos brasileiros viveram e vivem em intensa boêmia, e à Escola de Samba Unidos de Vila Isabel, da qual Cláudio Jorge integra a Ala de Compositores e, por mais de uma década, desfilou segurando a harmonia ao violão. A escola vem representada no samba-enredo Sou da Vila, não tem jeito, famoso samba de quadra de Vilani Silva, Rodolfo, Jaiminho e Saberás, que há anos é usado para o  “esquenta” da bateria antes da escola entrar na avenida.

 

Alô Noel

(Cláudio Jorge e Martinho da Vila)

Eu vou cantando o meu samba

E fazendo na vida meu melhor papel

Ser feliz, eu sonho:

Ter uma vida tranqüila

E morar numa vila em Vila Isabel.

 

Pode ser em qualquer rua

Que dê lá na Praça Barão de Drumond

Ou até mesmo um barraco

Naquele Macaco do meu coração.

Na Teodoro da Silva, lá na Torres Homem

Ou na Souza franco.

Mas a 28 é que é o biscoito

Pra ir pro maraca caminhando a pé.

Desfilar de azul e branco

E beber na Visconde de Abaeté.

SOU Da VILa,, NĀO TEM JEITO

(Vilani Silva (Bombril), Jaime Harmonia, Jorginho Saberás e Rodolfo de Souza)

Sou da Vila, naāo tem jeito

Comigo eu quero respeito

Que meu negócio é sambar

Se você nāo acredita

Por favor nāo me complica

Leva esse papo pra lá

Sou da Vila, o que que há

Abre os braços amor

Olha eu aí

Vou levantar poeira

Balançar a roseira na Sapucaí

Arranjo e violão  - Cláudio Jorge 

Baixo  elétrico -  Ivan Machado           

Bateria -  Camilo Mariano                   

Tan-tan/Repique/Pandeiro -  Marcelinho  Moreira               Coro -  Analimar Ventapani, Claudia Telles e Jurema de Cândia

Participações especiais: os botafoguenses e vilaisabelenses  Armando Marçal, Marcelinho Moreira e Paulinho da Aba (Caixas)     

Parceiros amigos

Provavelmente hoje o parceiro mais constante, também Botafogo e Vila Isabel, Luiz Carlos da Vila é o co-autor de Parceiros amigos, outro samba delicioso que fala por si.  Samba de feição clássica de Cláudio Jorge, serve para a profusão de imagens típicas do gênio de Luiz Carlos numa celebração da parceria, dos amigos de fé e trabalho: “A tua poesia com o meu violão/ Parceiros amigos na mesma inspiração”. A parceria de Luiz Carlos e Cláudio Jorge, aliás, extrapola a composição: os dois andam juntos para cima e para baixo numa amizade diária, que resultou, entre outros trabalhos, no disco “Matrizes” (selo Rádio MEC, 2006), uma viagem pelos ritmos negros que influenciaram a música brasileira, e que acabou transformando-se num especial do Canal Futura, gravado ao vivo na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador.

PARCEIROS AMIGOS

(Cláudio Jorge e Luiz Carlos da Vila)

 

 

Como é bom poder fazer

aquele som que dá prazer.

E, de mais a mais, saber

que os parceiros são pra ser...

 

Que nem a aliança

dos pés e da dança e a

a luz do salão.

A régua e o compasso,

o lápis e o traço e a criação.

O Chico e a Banda,

a água e o sabão.

Bem como a varanda

e o caramanchão.

A bola de gude

menino a rolar no chão.

O encontro da infância com a tradição.

A tua poesia com o meu violão.

Parceiros amigos na mesma inspiração.

Samba da Bandola

Parceiros e amigos que já não estão mais por aí também são lembrados. Da prolífica parceria com João Nogueira, Cláudio Jorge retoma um velho sucesso dos anos 70 que tem tudo a ver com este disco aqui, pela celebração que faz da amizade: o Samba da Bandola. E no velho samba, traz novíssimos parceiros músicos: Hamilton de Holanda (bandolim), Rogério Caetano (violão de 7), Daniel Santiago (violão de 6) e Gabriel Grossi (gaita), todos jovens músicos de Brasília radicados no Rio e que vêm agitando o panorama musical brasileiro, numa performance de arrepiar.

SAMBA DA BANDOLA

(Cláudio Jorge e João Nogueira)

 

Baiana que sobe a ladeira

Que sobe a ladeira do Bonfim

Segura meu samba capoeira

Que eu vou segurar meu tamborim

Sambei na Portela e na Mangueira

Em vila Isabel sambei também

Levei muito tombo na rasteira

Andei pendurado no trem

Na bola de gude e pião

Eu fui coroado também

 

Eu sou carioca lá do subúrbio

Do tal distúrbio Noel falou

Eu não perco a bossa eu sigo o rumo

Do braço aberto do Redentor

 

É bando é bandola é bandoleiro

Samba no meu bando é mesmo assim

Falou violão falou primeiro

E quem respondeu foi bandolim

Meu bando é bandola não se assusta

E se pinta a justa eu canto assim

Arranjo de base e violão - Cláudio Jorge

Baixo elétrico -Ivan Machado

Pandeiro - Ovídio Brito                                      

Tan-tan -  Marcelinho Moreira                                                          

Participações especiais e arranjo:                                                                       

Brasília Brasil (Hamilton de Hollanda – Bandolim/ Rogério Caetano - Violão de sete cordas/ Daniel Santiago - Violão de 6 cordas - solo/ e Gabriel Grossi (gaita)                                

O independente

Sidney Miller, grande compositor morto precocemente aos 35 anos em 1980, é o parceiro no inédito samba enredo O independente, visão irônica, amarga, mas sempre afetuosa sobre o país. No dia em que fez este samba, o filho de Cláudio Jorge, Gabriel Versiani tinha acabado de nascer, o que fez Sidney Miller dedicar a composição a ele. Agora, cantor em início de carreira – grava o primeiro disco – Gabriel canta o samba dedicado a ele junto com o pai, trazendo um afeto que faltava ao painel, o de pai e filho.

O INDEPENDENTE

(Claudio Jorge e Sidnei Miller)

 

Nascemos independentes

Dentro de um país

No continente que alguém batizou: Brasil

Quando descobriu belezas naturais

Riquezas muito nacionais

As aves daqui gorjeiam sons originais

Em melodias que o mundo jamais ouviu

Terra tāo gentil,

Reparte esse canto de ouro

E poderás adormecer em paz

 

Corpos pelo chāo

São anjos pelos ares

Vamos povoando altares

Pede-se o melhor

Engole-se aquilo que vem

O resto eu sei de cor, amém.

 

Abri a porta da frente

Olha quanta gente apareceu

Lá nos fundos do meu quintal

Foi-se o meu pomar, deixaram-me sementes

Presentes pr'eu poder plantar.

Mas nós nāo estamos calados

Grita-se em geral gritos de gol

E até gritos de carnaval

Disse alguém feliz

Que só nesse santo pais aconteceu

O bem venceu o mal.

Rosa Maria

Tudo é ilusão

O afeto de pai e filho volta nas únicas músicas do disco que não são composições de Cláudio Jorge: o medley de dois sambas de Caxinê (o apelido do grande compositor do Salgueiro e do bairro de Botafogo, Éden Silva), Rosa Maria e Tudo é ilusão. Sambas de estilista, grandes sucessos nos anos 50, eram os preferidos do pai de Cláudio Jorge, o jornalista Everaldo de Barros, e do também jornalista Paulo Medeiros, pai do produtor do disco, Paulinho Albuquerque.

ROSA MARIA  (Anibal da Silva e Eden Silva)

Um dia encontrei Rosa Maria

Na beira da praia a soluçar

eu perguntei: o que aconteceu?

Rosa Maria me respondeu:

O nosso amor morreu.
Não sei ainda explicar qual a razão 
De Rosa Maria desprezar meu coração
Eu fazia-lhe toda a vontade
Será que ela tem outra amizade?

TUDO É ILUSĀO (Anibal da silva e Eden Silva e Raul Moreno)

Não, não foi surpresa para mim
Porque tudo na vida tem fim
Eu esperei com resignação
O triste dia da separação
Vai, meu amor siga o teu destino
Que eu seguirei o meu
Seja feliz, adeus (2x)
Nada dura eternamente
Tudo na vida é ilusão
Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde,
Chegaria o dia da separação

Arranjo e violão - Cláudio Jorge

Violão de 7 cordas - Filipe Lima                                                    

Cavaquinho - Mauro Diniz                                                  

Pandeiro/Tan-tan/Tamborim -Esguleba                                         

Djembe/Agôgo  -   Marcelinho Moreira                         

Coro - Analimar Ventapani, Claudia Telles e Jurema de Cândia 

SAMBISTA PARTIDÁRIO 

(Cláudio Jorge)

 

Velho camarada amigo

Vim aqui lhe convidar

Para ingressar num partido

Que é bem conhecido por ser popular

Não tem sede, não tem comitê

Mas tem pra palanque o quintal e o palco

Vim aqui lhe convencer

A se filiar ao meu Partido Alto

 

Meu partido não tem presidente

Cacique, suplente nem governador

Pra se líder na nossa bancada

É preciso ter banca de improvisador

Daqueles que usam a palavra cantando

De um jeito contando uma história

Levando alegria pro povo

E fazendo de bobo quem perde a memória

 

Falando da nossa estrutura

O pandeiro e o cavaco sustentam a base

E a nossa ideologia é cantar o bom Samba

Seja em qualquer fase

Ser correligionário do nosso trabalho

É uma prova de amor

O sambista quando é partidário

Defende o Partido do jeito que for

 

Aproveitando o momento

De divertimento pra um manifesto

Não quero sentir a vergonha de ser brasileiro

E por isso protesto

Contra a ambição desmedida

Que faz deputado e também senador

Pular de um partido pro outro

jogando o meu voto no ventilador

 

Arranjo de base e violão - Cláudio Jorge

Arranjo de metais -  Gilson Peranzzeta        

Baixo  elétrico - Ivan Machado

Bateria - Camilo Mariano

Pandeiro -  Ovídio Britoi                                                                  

Tan-tan/Repique - Marcelinho Moreira 

Clarinetes/Clarones - Rui Alvim                                                      

Coro - Analimar Ventapani, Claudia Telles e Jurema de Cândia 

“Voz de Xangô da Mangueira – Trecho de entrevista concedida a Cláudio Jorge, Dorina e ao jornalista Cristiano Menezes”.                  

Melhor assim

(Cláudio Jorge e Nei Lopes)

 

Uma atração irresistível virou paixão

Infelizmente foi somente paixão

Vulcão em erupção terrível

Encontro de complementares nós dois

Amarga união de contrários depois

Que colisão! Fratura exposta

Impossível recompor

Tarde demais, “Inês é morta”

É se acostumar à dor

 

Foi um furacão avassalador

Foi uma ilusão nunca foi amor

Foi revolução com tiro de festim

Fanfarra de um só clarim

E agora apagado o fogo e o estopim

Eu vejo foi melhor assim

Arranjo de base e violão - Cláudio Jorge      

Arranjo de metais - Itamar Assiére      

Baixo  elétrico - Ivan Machado      

Bateria- Camilo Mariano      

Pandeiro - Ovídio Brito      

Tantan/Repique -  Marcelinho Moreira      

Trompete -  Altair Martins      

Sax tenor - José Carlos Bigorna      

Trombone -  Johnsom  Barbosa    

Participação especial - Jota Moraes (Vibrafone)

LUNDU DE CANTIGAS VAGAS

(Cláudio Jorge e Nei Lopes)

 

No sopé daquela serra

Lá detrás daquela matas

Meu coração desatina

Minha viola desata

Vertiginosa cascata

Vem rolando lá de cima

Num som de bordões e primas

Na cor do ouro e da prata

Nesta avalanche de rimas

Que um dia ainda me mata

 

Mandei escrever teu nome  

No canto do tangará  

Pro mundo ficar sabendo             

Quem que é minha iaiá        

 

Bem por trás daquela serra

Naqueles longes confins

Morsa a flor mais olorosa

No mais belo dos jardins

E eu que sou seu jasmim

Vou cantá-la em verso e prosa

Indo colher uma glosa

No mais profundo de mim

Pra ofertar aquela rosa

Que ainda vai ser meu fim

 

Mandei escrever teu nome

No cheiro de um manacá

Pro mundo ficar sabendo

Quem que é minha iaiá

Arranjo de base e

violão - Cláudio Jorge    

Baixo acústico - Bororó                  Bateria - Camilo Mariano             Ganzá/Triângulo e 

pandeiro - Ovídio Brito    

Armando Marçal  - Block 

Participação especial - Marco Pereira (Viola de 10 cordas)                       

Traz um presente pra mim?

(Wilson das Neves e Cláudio Jorge)

 

É só ela saber que eu já vou viajar

Que ela me pede: “Traz um presente pra mim?

Pato no tucupi se fores ao Pará,

Passando na Nigéria, argolas de marfim.

“Me traz uma lembrança de qualquer lugar.

Que seja uma rosa pro nosso jardim “

E eu, que vivo a vida só pra lhe agradar,

Atendo o teu pedido tin-tin por tin-tin.

 

Uma seda de Nova Déli

E um perfume lá de Paris

Se eu esquecer, compro no free shop.

Eu só quero é te ver feliz.

Brincadeira, se parecer,

Ledo engano vão cometer.

Sou capaz de virar fogueira

E o frio dela aquecer

O quimono vem do Japão,

Uma renda do Ceará

E o lanche lá do avião,

Pras crianças eu vou levar.

E do céu do nosso sertão

Mil estrelas vou recolher

E de luz farei um buquê

Que é pra te oferecer.

Um bom vinho de Portugal

E de Cuba o meu prazer.

Eu trarei pra poder fumar

Te contando histórias do Che.

Um tambor lá do Maranhão,

Da Bahia o Ilê Aiyê

E também mais essa canção

Que dedico a você.

Arranjo de base e violão -  Cláudio Jorge

Arranjo de metais -  Itamar Assiére

Baixo elétrico - Ivan Machado

Bateria - Camilo Mariano

Pandeiro/Tan-tan -  Marcelinho Moreira

Coro - Analimar Ventapani, Claudia Telles e Jurema de Cândia

Bongô -  Armando Marçal

Trombone - Johnson Barbosa

Sax tenor - Henrique Band

Fluguel - Altair Martins

Flauta -  Ricardo Pontes

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