Ismael Silva: Uma Escola de Samba

Por Hugo Sukman

Ilustraçāo: Nei Lopes

 

 

 

A existência do samba do Estácio - ou pelo menos o fato de nós (e o mundo) hoje sabermos dele e o considerarmos o padrão do samba brasileiro - deve-se a uma só pessoa: Francisco Alves.

Pois o fato é que o Chico Viola, ainda se encaminhando para o ser O Rei Voz, não tinha medo de bamba. E possuía um faro inigualável para música boa. Por isso, sem medo e como um astuto cão farejador, foi o único artista brasileiro estabelecido que, lá por 1928, meteu-se no meio do (mal) afamado grupo de malandros do bairro do Estácio, gente como Ismael Silva, Brancura, Baiaco, Nilton Bastos, Getúlio Marinho, Mano Elói e outros mais, todos grandes sambistas mas que viviam, invariavelmente (a exceção seria Bide, já músico profissional) de jogo, de explorar mulher na vizinha "Zona" do Mangue, e mesmo de pequenos golpes. Mas era o mesmo grupo que em 18 de agosto de 1928 chamou oficialmente de "Escola de Samba" o bloco carnavalesco que acabara de fundar, o Deixa Falar. Se o Estácio tinha a Escola Normal, das professoras, também seria a escola dos sambistas que, em "embaixadas" enviadas a Mangueira, Oswaldo Cruz ou Salgueiro, espalhariam a ideia de um samba moderno, real, batucado, "de sambar". Ensinariam, pois, o samba.

Agora, imagina o que era chegar perto desse grupo, todos na flor dos 20 anos, talentosíssimos, meio marginais, meio professores? Francisco Alves chegou, descobriu esse manancial e, já em 1928, lançou sambas de Bide ("A malandragem"), Ismael ("Me faz carinhos", "Não é isso que eu procuro)", Brancura ("Samba de verdade"). Mais tarde, em dupla com Mario Reis, lançaria a parceria Ismael Silva e Nilton Bastos, e consagraria o estilo moderno, coloquial, pessimista, batucado do samba do Estácio em clássicos como "Nem é bom falar" e "Se você jurar", entre outros. Com a morte precoce de Nilton Bastos, no final de 31, o mesmo Francisco Alves intuiu que o jovem Noel Rosa seria o seu substituto ideal e lançou a parceria Ismael e Noel, o preto e o branco, o morro e o asfalto, a criatividade e o conhecimento, (às vezes de mão inversa, Noel no papel de intuitivo, Ismael na de "letrado"), o Rio de Janeiro inteiro.

Mas ao descobrir o samba do Estácio, de certa forma Francisco Alves o escondeu para sempre, criou um problema histórico: como era um tipo de música ainda muito nova, as orquestras que acompanhavam os cantores em disco ou no incipiente rádio ainda não estavam preparadas para ela e tocavam o "samba de sambar" ainda como samba antigo, "de dançar". Ou seja, tocavam samba como se fosse maxixe. Como eram mesmo as batucadas no Largo do Estácio, nos bares da "zona", nas biroscas do Morro de São Carlos, isso se perdeu para sempre.

Daí vem - e para além da recuperação deste repertório magnífico e estranhamente pouco gravado - a importância deste "Ismael Silva: uma escola de samba", de Augusto Martins e Cláudio Jorge: recolocar o samba do Estácio e de seu maior compositor em seu, digamos, "habitat" natural, o do samba batucado, ou melhor dizendo, o dos pagodes cariocas.

Mesmo Ismael quando começou ele próprio a gravar seus sambas a partir de 1955, o fez com aquela forma consagrada nos anos 30, levemente amaxixada.

 Agora, pela primeira vez esse repertório - desde as primeiras composições lançadas por Chico Alves até sambas do Ismael maduro, como "Antonico" e "Peçam bis" - é cantado e tocado da forma como provavelmente eles foram feitos, ao som de violão, cavaquinho e muita batucada.

 A revolução do pagode carioca dos anos 1980, que revelou os primeiros músicos formados no universo do samba (antes, eles vinham do choro), espalha seus efeitos agora no repertório do gênio Ismael Silva. Espertos, Augusto e Cláudio Jorge queriam atualizar Ismael Silva para o samba de hoje. Conseguiram. E, de quebra, fizeram impecável arqueologia, como se nos botassem numa máquina do tempo e, numa noite qualquer de 1927, numa birosca ao pé do Morro de São Carlos e cercados por malandros maneiros ouvíssemos pela primeira vez alguém cantar: "Se você jurar, que me tem amor...".

Foto: Clóvis Scarpino

Ficha técnica

Produçāo: Augusto Martins e Cláudio Jorge

Arranjos: Cláudio Jorge

Augusto Martins – Intérprete e coro

Cláudio Jorge – Intérprete e coro

Cláudio Jorge – Violão de 6

Carlinhos 7 cordas – Violāo de 7

Marcio Wanderley – Banjo e Cavaquinho

Belôba – Tantan

Flavinho – Surdo e pandeiro

Marcelinho Moreira – Pandeiro, tamborim  e repique de māo

Dirceu Leite – Flauta e clarinete

Gravado e mixado no Estudio Meier

Identidade visual: David Lima

Ilustracāo: Nei LOpes

Fotos: Celso Filho

Técnicos de gravaçāo: Rodrigo Gaviaāo e Ranier Alves

Masterizaçāo: Carlos Mills

Agradecimentos aos músicos pelo despreendimento e talento, ao Grêmio Recretivo Escola de Samba Estácio de Sá pelo espaco histórico, ao Celso Filho pelas melhores imagens, a Gabrielle Carvalho pela ajuda na producāo, ao Hugo Sukman pelas palavras e incentivo, ao Nei Lopes pelos tracos encantados.

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Foto: Celso Filho

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